PRINCIPIANTE
Quando do chão partiu meu grito Eu ainda era pó das estrelas. Não havia nenhum lugar do universo Para indicar que eu pudesse Vir a ser o que sou hoje. Não havia indício da minha existência Nem a luz da estrela guia Para me trazer a este mundo Que meu entendimento imagina. Fui me fazendo aos poucos Com os grãos espalhados no princípio. Entre um clarão e outro Um lampejo escapou para o escuro E projetou um vulto num lugar estranho Onde de mim nasceram outros E se criaram os sentimentos Para que a vida tivesse chances E o mundo não fosse inóspito. Sou esse emaranhado de amor e matéria Que se desprendeu do cosmos Atravessou todas as eras E me botou aqui pasmo e boquiaberto. Não me digam que estou formado E muito menos completo Pois a cada dia me entrego As noites que me decifram E sonhos que me devoram.
Escrito por ivoando às 22h23
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QUEBRA-CABEÇA
Sempre me confundo Nessas coisas da alma. Nunca tenho a reza certa Nem a oferenda precisa. O deus que eu chamo Acorda com torcicolo E está sempre de mau humor Talvez pela solidão do gabinete Ou pelo excesso de assessores. Tenho pesadelos nas insônias. Talvez fosse mais fácil Se me fantasiasse de sons E habitasse os sonhos alheios. Eu poderia ser o vulto fugaz Que nunca mostra o rosto E some sem deixar rastros. Esqueci todas as fórmulas Que tornam um homem inteiro. Vou me recortando Um pouco por dia Desunindo os olhos Afastando a mente Desmontando a alma Separarando os desejos E cortando o peito Até virar um quebra-cabeça.
Escrito por ivoando às 22h41
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