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 loucura por inércia




Blog de ivoando
 


UM POUCO DAS COISAS

 

Porque no princípio havia um Gênesis

Acordei esperando que a abóboda celeste se abrisse

E por ela eu pudesse entrar com todos meus medos

Com todos meus disfarces

Com todos meus trejeitos de quem pensa que sabe

De todas coisas e acorda num  inverno cálido

Com todas as coisas esperando ser amadas

Antes que suas horas terminassem.

 

Porque estava acabrunhado na hora da partida

Nem reparei que junto ia um caminhão de cadáveres

E já no primeiro sacolejo fiquei face a face

Com a morte irônica que me espiava do outro lado

Da cidade que festejava seu padroeiro

Enquanto este roncava no céu de barriga cheia

De orações e súplicas que ele sabia

Que nunca seriam ouvidas e ria da crendice popular

Que gastava lágrimas à toa.

 

Acordei assustado num mundo de mazelas

Que me obrigavam caminhar com os pés descalços

E riam de mim que me preocupava com os outros

E tinham pena de mim porque não acreditava

Enquanto para todos as coisas eram tão límpidas

Que me puseram louco a olhar pra o infinito

Esperando uma escada rolante que me levasse

A um recinto onde todos meus problemas

Seriam resolvidos num abrir e fechar de olhos

Que renunciei com um muito obrigado

Com medo que meus olhos não mais se abrissem.

 

De um ponto a outro da terra passeei meus sentimentos

Sem deter meus sentidos em nenhum deles

Mentindo a mim mesmo que era forte

E podia carregar todas as dores do mundo às costas

Sem preocupar-me com os instintos bestiais

Que iam aflorando a cada instante em cada gente

Que debochavam de suas próprias caricaturas

Pois sabiam que o belo havia dado lugar ao vago

E não havia mais nenhum lugar nesse mundo

Onde a bondade pudesse depositar seus ovos.

 

Fui levantando edifícios em terrenos pantanosos

Na ânsia de conseguir sair dos labirintos torpes

Que armavam ciladas em cada beco

E faziam eco a todas as vozes que saíam das sombras

Para que os sentidos se perdessem no lodo

E não pudessem sentir a chegada da primavera

Trazendo no seio a última flor do ùltimo fruto

Do ventre que abortou e foi esquecido.

 

De todas as formas de amar eu amei e com todas as forças

E todas as coisas que meu coração sangrou no instante

Que a mata fechada se abriu e de lá saiu uma criança

Que me abraçou na hora mais triste

Em que juntava minhas coisas para deixar o mundo

E me disse que a vida é um breve instante

E cada coisa tem um significado e faz da gente

Um elemento tão importante que não faz sentido

Deixar o mundo pela porta dos fundos

Quando um tapete vermelho espera na frente.

 

Por ser assim de natureza notívaga e itinerante

Não consigo ver as coisas pelo mesmo lado

Que todo vê e acha bonito e acha certo

Que todo mundo veja daquele jeito e fazem questão

De mostrar o tempo todo o limite do razoável

Para que tudo continue no mesmo lugar

E não haja surpresas desagradáveis

Pois há uma lei para o bem e para o mal

Da qual ninguém escapa e todos estão sujeitos

Para que você se adapte e se foda.



Escrito por ivoando às 06h37
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HAI KAI

          Com lágrimas que são óleos

 

                    Banha a menina

 

                        Dos olhos.



Escrito por ivoando às 22h26
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DE TUDO QUE SEI

 

De tudo que sei nada fiz

A não ser deixar meu corpo

Vagar pelo etéreo

Como matéria viva

Em sintonia com tantos seres

Que tantas vezes desfizeram

Tantos sonhos que plantei

Tanto amor que me mataram.

 

Do que resta nada sei

Nem espero recompensa.

Vivo apenas

Como uma sombra que passa

Como fantasma no espelho

Que assusta uma santa.

Não me comovem lembranças

Nem meu corpo jogado às traças.



Escrito por ivoando às 23h27
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NO VENTRE DA TERRA

 

No ventre da terra, entre aromas trazidos pelo vento

Encontrei o dia, que ao ver-me

Quebrou-se como vidro.

 

Nem bem meus olhos cegaram

E já estava à margem da vida, nas calçadas

Onde os pés errantes fogem do frio.

 

Cobri-me com a brisa matutina das brumas

E saí tateando as cores das palavras

Onde busco o verde da infância

Como uma manga temporã.



Escrito por ivoando às 19h51
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MALAQUIAS, UM PROFETA SEM FUTURO LXIII

 

- Você vai acabar perdendo sua alma, Malaquias?

 

- Ela já está perdida.

 

- Isso não te dá medo?

 

- Dá sim... Medo de encontrá-la!

 



Escrito por ivoando às 21h22
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