UM POUCO DAS COISAS
Porque no princípio havia um Gênesis Acordei esperando que a abóboda celeste se abrisse E por ela eu pudesse entrar com todos meus medos Com todos meus disfarces Com todos meus trejeitos de quem pensa que sabe De todas coisas e acorda num inverno cálido Com todas as coisas esperando ser amadas Antes que suas horas terminassem. Porque estava acabrunhado na hora da partida Nem reparei que junto ia um caminhão de cadáveres E já no primeiro sacolejo fiquei face a face Com a morte irônica que me espiava do outro lado Da cidade que festejava seu padroeiro Enquanto este roncava no céu de barriga cheia De orações e súplicas que ele sabia Que nunca seriam ouvidas e ria da crendice popular Que gastava lágrimas à toa. Acordei assustado num mundo de mazelas Que me obrigavam caminhar com os pés descalços E riam de mim que me preocupava com os outros E tinham pena de mim porque não acreditava Enquanto para todos as coisas eram tão límpidas Que me puseram louco a olhar pra o infinito Esperando uma escada rolante que me levasse A um recinto onde todos meus problemas Seriam resolvidos num abrir e fechar de olhos Que renunciei com um muito obrigado Com medo que meus olhos não mais se abrissem. De um ponto a outro da terra passeei meus sentimentos Sem deter meus sentidos em nenhum deles Mentindo a mim mesmo que era forte E podia carregar todas as dores do mundo às costas Sem preocupar-me com os instintos bestiais Que iam aflorando a cada instante em cada gente Que debochavam de suas próprias caricaturas Pois sabiam que o belo havia dado lugar ao vago E não havia mais nenhum lugar nesse mundo Onde a bondade pudesse depositar seus ovos. Fui levantando edifícios em terrenos pantanosos Na ânsia de conseguir sair dos labirintos torpes Que armavam ciladas em cada beco E faziam eco a todas as vozes que saíam das sombras Para que os sentidos se perdessem no lodo E não pudessem sentir a chegada da primavera Trazendo no seio a última flor do ùltimo fruto Do ventre que abortou e foi esquecido. De todas as formas de amar eu amei e com todas as forças E todas as coisas que meu coração sangrou no instante Que a mata fechada se abriu e de lá saiu uma criança Que me abraçou na hora mais triste Em que juntava minhas coisas para deixar o mundo E me disse que a vida é um breve instante E cada coisa tem um significado e faz da gente Um elemento tão importante que não faz sentido Deixar o mundo pela porta dos fundos Quando um tapete vermelho espera na frente. Por ser assim de natureza notívaga e itinerante Não consigo ver as coisas pelo mesmo lado Que todo vê e acha bonito e acha certo Que todo mundo veja daquele jeito e fazem questão De mostrar o tempo todo o limite do razoável Para que tudo continue no mesmo lugar E não haja surpresas desagradáveis Pois há uma lei para o bem e para o mal Da qual ninguém escapa e todos estão sujeitos Para que você se adapte e se foda.
Escrito por ivoando às 06h37
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HAI KAI
Com lágrimas que são óleos Banha a menina Dos olhos.
Escrito por ivoando às 22h26
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DE TUDO QUE SEI
De tudo que sei nada fiz A não ser deixar meu corpo Vagar pelo etéreo Como matéria viva Em sintonia com tantos seres Que tantas vezes desfizeram Tantos sonhos que plantei Tanto amor que me mataram. Do que resta nada sei Nem espero recompensa. Vivo apenas Como uma sombra que passa Como fantasma no espelho Que assusta uma santa. Não me comovem lembranças Nem meu corpo jogado às traças.
Escrito por ivoando às 23h27
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NO VENTRE DA TERRA
No ventre da terra, entre aromas trazidos pelo vento Encontrei o dia, que ao ver-me Quebrou-se como vidro. Nem bem meus olhos cegaram E já estava à margem da vida, nas calçadas Onde os pés errantes fogem do frio. Cobri-me com a brisa matutina das brumas E saí tateando as cores das palavras Onde busco o verde da infância Como uma manga temporã.
Escrito por ivoando às 19h51
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MALAQUIAS, UM PROFETA SEM FUTURO LXIII
- Você vai acabar perdendo sua alma, Malaquias? - Ela já está perdida. - Isso não te dá medo? - Dá sim... Medo de encontrá-la!
Escrito por ivoando às 21h22
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